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A mostrar mensagens de 2018

Arcipestre

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Homem inteligente, culto, conservador, por vezes magnânimo. Arcipestre adquirido pelo domínio dos evangelhos e aceite pelas almas, Leite de Araújo sabia para onde vinha. Fazia gáudio do silêncio, que por este se fazia reinar. Mesmo quando falava era em silêncio, exigindo um apuro cada vez maior às orelhas moucas porque os ouvidos só ouvem o que querem. Mas também não havia problema. O som, por inaudível que fosse era pelo menos celeste porque melódico, contrastando com o infindável ruído das concertinas das festividades minhotas. A obediência tem destas coisas. Não necessitamos de ouvir para nos sentirmos culpados. Aliás, quanto mais obedecemos sem razão mais é o sentimento de culpa. Leite de Araújo sabia-o. 

Miguel Monteiro

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Há pessoas que possuem aqueles gestos, atitudes, comportamentos que não enganam. São espontâneas, apesar de sábias; vitalistas, apesar de ponderadas. Imensas foram as tertúlias, imensas foram as minhas interrogações sobre o porquê de me ouvir e o porquê de me ensinar. Aprendi com o Miguel a saber ouvir. Aprendi com o Miguel o prazer de criar. Enquanto uns nos dizem como deve ser, o Miguel era. O seu exemplo preenche uma vida. Vivia as situações, era emotivo por convicção e racional por dever. Quando hoje tenho um problema para resolver, pergunto: como é que o Miguel resolveria a situação? Foi com esta viagem à sua mente que resolvi muitos dos meus problemas. Ainda hoje pensei: como é que o Miguel reagiria à sua morte? Julgo que era a única coisa que não sei responder por que o Miguel era vida, ou melhor, é vida. António Daniel

O Rio do Matadouro

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Assim fora designado o rio que serpenteava as margens da Ponte do Ranha. Ao lado do Matadouro, alheias aos gemidos fúnebres dos animais, as mulheres castigavam as mãos na rudeza da água que, por mais translúcida que fosse , parecia quente. Os sabões, comprados ao quilo na venda do Canedo, ainda com o papel tão característico a servir de invólucro, deslizavam na roupa com suavidade, contrastando com os preparativos da lavagem de mantas, carpetes, tapetes e afins. Sobre aquelas pedras de granito, esfregava-se com veemência, revelando a minhota em todo o seu esplendor. Pujante na atitude, com o verbo malicioso na ponta da língua, apontava o norte através da palavra para atenuar o esforço do manejamento das pesadas peças molhadas. Toda a sua beleza reinava naquele poder surpreendente onde a sonoridade permanente de uma pequena queda de água abafava as vozes mas revelava o corpo. Destas ambiências comungavam os putos. Com um enquadramento maternal próprio da minhota, com marcação...

Sr. Ilídio

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O som ecoava por toda a rua. Marcava a cadência do levantar. Criava uma imagem de Kentucky no canto da boca ao mesmo tempo que a martelada no sapato marcava a sinfonia matinal. Parecia que toda a rua se deixava levar pela musicalidade do momento. Seis da manhã. Outro som se intrometia. Pelo toque do líquido nas latrinas de metal, todos se preparavam para o leite. Ainda hoje oiço o som. Mas era a tosse do Sr. Ilídio que se sobrepunha. Antigo jogador de futebol, como seria fácil de constatar pelo arqueamento das pernas, Ilídio tinha aquele sorriso que motivava uma graça mas também uma ternura de um tipo que sempre relembramos. Depressa inventou uma locomoção para o triciclo que me movia da Travessa da Rua do Maia até ao Assento. Sempre com o seu Kentucky no canto da boca, empurrava-me com um pau bifurcado na ponta que permitia, simultaneamente, o emprego da força adequada à relação peso-potência e à insinuante deslocação pelo paralelepípedo. De regresso à sua oficina, Ilídio ...

A Ponte do Ranha

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A Ponte do Ranha sempre foi uma rua muito especial. Os indefectíveis defensores da zona da Fábrica do ferro ou da Rua de baixo, não comungarão desta opinião. Possivelmente a razão lhes assiste porque a especialidade também lhes assentava, embora não tivessem o Canedo como o seu centro. Neste ponto nevrálgico, a rua possuía em doses proporcionais a vanguarda da alcoolemia da vila, o poiso das «Minhas Putas Tristes» e a imensa generosidade das pessoas. Públicas virtudes e públicos defeitos. Tudo fora transparente. Eu pertencia à Ponte do Ranha. A memória mais presente era dos cheiros: o cheiro da mercearia do Canedo contrastava com as «tosses», os monólogos imprecisos e as palavras «peludas» oriundos do tasco; o cheiro do medo dos ruminantes na aproximação ao dia do juízo final; o cheiro do sabão rosa que se banhava nas cristalinas águas do rio. Mas havia ainda um local de romarias juvenis: o «poço da moçarada». Pela Ranha acima, dirigiamo-nos ao poço. Este poço possuía só por si a ...

Escola

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A escola primária sempre viveu tempos edílicos pelo modo como as pessoas a recordam. Os seus professores, os espaços, os colegas, as primeiras letras e números. A minha não foi assim. Foi triste. Também não sou propriamente a felicidade em pessoa, é certo. Os únicos momentos de exaltação narcísica resumiram-se às alturas em que fora dono da bola. Também deve ter sido uma vez, comprada no Rates. Tive cerca de 8 professores da 1ª à 4ª classe. A grande maioria deles mestres no m anejamento da cana ou da régua. A memória de longo prazo fixou o momento em que arrefecíamos as mãos no ferro das velhas carteiras. Fui-me habituando à ideia de que as aulas da manhã não seriam para os menos dotados, muito menos para os que não habitavam o pequeno burgo. Quase sempre tinha aulas à tarde. Ouvia falar dos grandes mestres que eram professores dos outros. Mas esses outros não tiveram a vantagem de verem o Nai a escrever. Com as feições de adolescente para quem a escola fora um pequeno ...

Geada

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O Minho é especial, mas Fafe é ainda mais especial. Sim, somos diferentes. Até na coligação contranatura na Câmara. Um dos grandes problemas nos que às europas diz respeito é considerar todos iguais, todos diferentes. Se em relação a qualquer condição do direito se aceita, já em relação à «alma» calma aí e pára o baile. Na nossa intangibilidade ninguém toca porque, mais do que qualquer povo europeu, gostamos de carinho e não dessas novas coisas apelidadas de competitividade. Gostamos de olhar de soslaio, certo, mas não é para sermos melhores mas para conservarmos o nosso cantinho. Não há nada mais interessante do que o nosso «cantinho». É lá que nos aquecemos das geadas e nos alimentamos, curiosamente mais a alma do que  o estômago. Aliás, para nós, a alma mora no estômago. É nas sopas de vinho com açúcar, devidamente aconchegadas nas brasas, que afogamos a amargura. Como nos sabem bem! Vem isto a propósito da geada que por estes dias vi num campo. Pessoas normais dize...

Pai Minhoto

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http://bloguedominho.blogs.sapo.pt/587165.html Os pais nunca são iguais. Os pais do M inho, muito menos. O pai minhoto é um pai mimoso, mas também espinhoso. O pai minhoto é um pai alheio, mas também um pai que espreita. O pai minhoto não sabe ser pai, mas é melhor do que os pais de outras paragens. É certo, já não existem pais minhotos, muito menos de Fafe. Ser pai, hoje, não tem enquadramento geográfico, mas já teve. Figura patriarcal, gostava desse modo de ser, refugiado do que aos assuntos maternais dizia respeito, alheava-se na rigidez da figura, cultivava os exemplos. Dizia muito pouco, mas comunicava muito. A honradez ocupava lugar de destaque assim como as públicas virtudes porque defeitos privados eram isso mesmo, privados. Também não são para aqui chamados. Virtuoso, mas curvado, emotivo, mas pensador, o pai minhoto em geral e o pai de Fafe em particular, tinha um poder simbólico, mais do que efectivo. Ou melhor, todo ele é simbólico. A cabeceira da mesa de j...

Bichos

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Bichos Apesar do título ser o mesmo, não pretendo fazer uma incursão pelos textos de Torga. Os seus eram transmontanos, os meus eram minhotos. Sob a alçada do título joga-se a universalidade mas, convenhamos, e desculpem a presunção, há particularidades regionais. Um cão transmontano não ladra, morde. Um minhoto ladra, mas não morde. Assim eram os meus bichos. Todos tinham em comum a designação de Pelé assim como a ausência de título nobliárquico. Vamos ao primeiro Pelé. Foi uma existência fugaz. Pelo curto, mancha sobranceira castanha, rasteiro no cheiro e estridente no afecto, acompanhava sempre as andanças, mas rapidamente deu a conhecer ao puto, seu dono, a efemeridade da existência. Não latiu, caiu. O poder paternal rapidamente quis apaziguar a angústia do juvenil. Um novo quadrúpede já vinha a caminho. Também com pelo curto, também com a mancha castanha, também a mesma forma estridente das afeições. Quase, quase que a sua existência era fugaz. Ficou-se pela perna...

Avé Maria

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Era habitual… Maio, Mês Mariano, rádio sintonizado em AM na RR. Palavras ditas e cantadas em unísssono, velas acesas que derretiam a cera (a cera a escorrer pelo fálico corpo). Na Igreja, palavras mansas próprias de quem está em estado de levitação, de quem maneja o rebanho. O Cónego. E nós todos: Avé… pelas intermináveis calendas do terço, descontávamos os rosários como um prisioneiro desconta a vida, vida essa que morava lá fora sobre a terra de Maio com o seu tempo indefinido. Contudo, até ao fim do mês de Maio repetia-se, sob uma voz sonâmbula, as passagens mais terríveis do Livro. Pecado, soava a dor no peito, diabo encarnava uma figura sem rosto mas medonha, para no fim tudo repousar no seu lugar natural, na Luz. A minha luz era, porém, a testosterona. Pela primeira vez pensei: é ela. A Carina correspondia a um desejo imberbe, a uma tentação que, curiosamente, se tornou divina. Perante a divindade, o complexo hormonal amolece, perde vigor, promovendo uma paixão que nos...